BOLETIM DA IGREJA PRESBITERIANA FILADÉLFIA

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

IGREJA PRESBITERIANA FILADÉLFIA 15 anos Proclamando a Glória de Deus

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No dia 28 de setembro de 2017 a Igreja Presbiteriana Filadélfia comemora 15 anos de organização.Durante o mês de setembro estivemos rendendo graças ao Senhor pelo nosso aniversário, com o lema: ”Um mês de Gratidão por quinze anos de bênçãos” e contamos com a participação dos preletores Dr. Arthur Cortez(IV IP de Garanhuns), Pr. Eli Vieira(pastor da IP Filadélfia), Pr. Wallace Rodrigues(IV IP de Garanhuns) e Pr. Josivan Martins(IP Lajedo-PE) e contamos com a participação dos Grupos de Louvor da nossa igreja e das irmãs Isabel Chalegra e Eliane Salvador e também contamos com a participação do pastor Jayme Barros, pastor Jadson Cunha e das Congregações de Caetés e Lagoa do Ouro.


Breve História da Igreja Presbiteriana

 Filadélfia

Origem da Igreja Presbiteriana Filadélfia

No primeiro semestre de 1990, foi recebido pelo conselho da Igreja Presbiteriana de Heliópolis um grupo de jovens, oriundos da Igreja Presbiteriana Fundamentalista Monte Sinai, que passou a reunir-se durante os dias da semana na residência dos irmãos; Odete Correia Braga e seu filho Moisés Braga, na Rua Diário de Pernambuco bairro de Heliópolis Garanhuns.
No mesmo ano passamos a congregação da referida igreja, após dois anos na residência dos irmãos Odete e Moisés, mudamos para COHAB I Rua L na residência da irmã Doraci Batista, onde passamos seis meses, no segundo semestre de 1992, passamos a funcionar com endereço fixo, no bairro de Heliópolis loteamento Jardim Petrópolis, Rua Tobias Barreto nº 30 - Garanhuns-PE

Irmã Nair Evangelista

Era um grupo de aproximadamente, trinta pessoas, em sua maioria jovens, e contávamos com o apoio das irmãs Odete Braga, Nair Maria dos Santos e Doraci Batista, que nos ajudaram na caminhada.
O primeiro evangelista da Congregação foi o irmão Claudionor Evangelista dos Santos, outros irmãos cooperaram com o trabalho em seu início como o seminarista e atualmente pastor Hamilton Rodrigues, o missionário Neto Terra Nova¹.

Em breve mais informações. Aguarde!

1- Informações fornecidas pelos presbíteros José Cícero e Matosalém Evangelista.

  

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

JESUS: O SERVO INCOMPARÁVEL


João 13.1-38
Charles Erdman diz que o capítulo 13 de João, “é o lugar santo do edifício sagrado desse evangelho”. Depois de alguns anos de ministério público de Jesus, agora podemos ver o ministério particular do mestre dos mestres. Naquele momento Jesus se reuniu com os seus discípulos e lhes transmitiu ensinamentos que continuam falando ainda hoje. Neste momento eu convido você para olharmos para o texto em tela como também para o evangelho de João e aprendermos com Jesus algumas lições.

1-PORQUE ELE ERA HUMILDE (13.1-11) - Cada família em Israel se preparava para imolar o cordeiro pascal. A pascoa era a festa onde todos se reunião em Israel para celebrar a libertação da escravidão egípcia. Mas onde também era oferecido cordeiro Pascal, o mais vivido tipo de Cristo.

Era costume das pessoas antes de se sentarem à mesa, lavarem os pés. Este era o trabalho dos servos, dos escravos mais humildes de uma casa. Os seus discípulos, tinha vindo de Betânia, seus pés estavam sujos. Nem um dos discípulos de Jesus tomou atitude, eles não podiam sentar a mesa com os pés sujos, mas nenhum discípulo tomou atitude no que diz respeito a lavar os pés dos seus irmãos. Os discípulos pensavam que no reino privilégios implicava em grandeza (Lc 22.24-30), regalias, aplausos e reconhecimento dos homens.

Neste momento podemos contemplar a atitude incomparável do mestre Jesus, diferente dos seus discípulos, Jesus tomou uma toalha, e uma bacia com água, e se pôs a lavar os pés dos seus discípulos, enquanto eles estavam pensando que seria o maior entre eles, Jesus ensina que eles deveriam ser humildes.Com esta atitude Jesus estava ensinando que privilégios, não implica em soberba, mas em humildade. Jesus sabia quem era, de onde tinha vindo e para onde ia. Ele era o rei dos reis, o senhor do universo. Não obstante, o seu poder não o levou a autoexaltação, mas a humildade. Como disse o pastor Hernandes Dias Lopes “sua humildade não procedeu da sua pobreza, mas da sua riqueza”.
Willam Barclay disse: “o mundo se encontra cheio de gente que está de pé sobre sua dignidade quando deveria estar ajoelhada aos pés de seus irmãos”.

 Portanto, meus irmãos, humildade e amor, são atitudes que aqueles que não temem a Deus podem entender, mesmo que elas não saibam nada acerca das doutrinas teológicas que muitos crentes sabem.

Como servos de Jesus hoje, nós precisamos rogar ao Pai que nos ajude a seguir o exemplo de seu filho amado Jesus, que nós não venhamos apenas falar acerca da humildade de Jesus, mas a viver uma vida de tal maneira que a beleza de Cristo possa ser vista em nós.

2- PORQUE ELE ERA ONISCIENTE (13.18-32) – Em seu evangelho, João nos mostra quem era realmente o Senhor Jesus, ele era homem, mas João ao revelar sua onisciência, nos ensina que ele era Deus. Judas passou com Jesus e os discípulos dele três anos, os discípulos amigos de Judas não o conheciam, mas Jesus sabia quem era Judas. Ali no cenáculo era o momento que Judas tinha que tirar a sua máscara, e deixar a sua aparência de homem piedoso, e Jesus deixou claro que Judas não era um servo de Deus.

Ele andou com Jesus, viu seus milagres, ouviu seus sermões, realizou as obras de Deus (evangelizou), estava com os discípulos, pregou, orou, etc. Judas agora é dominado pelo diabo.  Tudo aquilo não pegou Jesus de surpresa, ele sabia o que estava acontecendo, quem era Judas Iscariotes. “Judas nos mostra quão longe um homem pode ir em sua profissão religiosa sem ser convertido, quão profundamente uma pessoa pode se envolver nas coisas de Deus e ser apenas um hipócrita, Judas Iscariotes nos mostra a inutilidade dos maiores privilégios sem um coração sincero diante de Deus. 

Privilégios espirituais sem a graça de Deus não salvam ninguém. Ninguém é salvo por ser um líder religioso, por ocupar um lugar de destaque na denominação ou por exercer um ministério espetacular”(Hernandes D. Lopes). No texto em tela, podemos contemplar a onisciência de Jesus, não só ao revelar o traidor, mas também ao revelar a fraqueza de Pedro (13.36-38), quando este fez questão de dizer que estaria pronto para morrer por Jesus, demonstrando assim a sua lealdade, mas ao mesmo tempo sua gabolice, Pedro estava dizendo que era melhor do que os seus colegas (Mc 14.29).O mestre Jesus revela que a autoconfiança de Pedro era nada, e coloca por terra toda a sua coragem.

Meus queridos, Jesus estava nos ensinando que diante dos desafios da vida, precisamos depender dele, porque sem ele não somos nada, mesmo que sejamos, corajosos, intelectuais, etc. Eu e você precisamos de Jesus, pois somos semelhantes a Pedro. Não se deixe levar por suas gabolices, conhecimento, dinheiro, cargo, etc. Você é tão fraco como Pedro. Somente Jesus, Ele conhece o nosso sentar e o nosso levantar, só a graça dele nos basta.

3-PORQUE ELE ERA ONIPOTENTE (Jo 2.1-12; 6.1-15; 9.1-12; 11.1-46) – O evangelista João ao falar sobre o ministério público de Jesus, enfatiza não só a sua vida como homem, mas nos mostra sete sinais que revelam o poder incomparável do Senhor Jesus, ao transformar a água em vinho, ao curar o cego, ressuscitar Lázaro depois de quatro dias, etc. Não só nos milagres realizados por Jesus, podemos ver o seu poder, mas também em suas palavras. 

É interessante notar que quando Judas fora entregar Jesus juntamente com a escolta dos sacerdotes e fariseus, Jesus lhes perguntou-lhes: a quem o buscais? e responderam-lhe: a Jesus o Nazareno. Quando, pois, Jesus disse-lhes: sou eu, recuaram e caíram por terra (Jo 18.1-6). Judas estava liderando a turba que fora fortemente armada ao Getsêmani para prender Jesus. Ele não fora acompanhado apenas de Judeus oficiais do templo, mas também de um destacamento de soldados romanos. Tratava-se de uma coorte. Uma coorte completa tinha 1000 homens, 760 soldados de infantaria e 240 de cavalaria. Essas tropas auxiliares de Roma ficavam estacionadas em Cesareia Marítima, quartel-general de Roma em Israel. Durante os dias de festa eles ficavam na fortaleza Antônia, a noroeste do complexo do templo em Jerusalém. Isso garantia um policiamento mais efetivo das grandes multidões que aumentavam muito a população de Jerusalém. Na festa da páscoa a população de Jerusalém quintuplicava. Essa festa era a alegria dos Judeus e o terror dos romanos. As tropas em Jerusalém tinham o propósito de garantir a ordem diante de qualquer possibilidade de tumulto ou rebelião alimentados pelo fervor religioso. Por essa razão é que essa coorte foi chamada para apoiar os guardas do templo; o risco de reação por parte da multidão era sem dúvida, elevado no caso da prisão de alguém com a popularidade de Jesus. D. A. Carson diz que a combinação de autoridades judaicas e romanas nessa prisão condena o mundo todo (Hernandes, 2015, ps. 440, 443)¹.

Todo este aparato não intimidara Jesus, mas ele revela o seu poder, ele tinha pleno controle sobre aquela situação, Jesus não fora preso, mas se entregou para cumprir as sagradas escrituras.

O sinédrio tinha a seu dispor um grupo de soldados para manter a ordem no templo. João 18.3 cita uma “escolta” que consistia em seiscentos homens, um décimo de uma legião. O Sinédrio entendeu que um destacamento de soldados seria prudente e necessário para evitar qualquer tumulto. E aquele grupo seguira armado até os dentes (Mc. 14.43). Isso nos mostra ainda mais o poder de Jesus.

Meus irmãos, hoje a nossa grande necessidade é de Jesus, ele não mudou, sem ele nós não somos nada e nada podemos fazer (Jo 15.5), com ele somos mais que vencedores (Rm 8.37), com ele podemos enfrentar quaisquer situações (Fl 4.13). Não sei quais são os seus dramas, as circunstâncias que lhe cercam, mas eu sei que Jesus não mudou, ele é o mesmo ontem e hoje e para sempre. Somente Jesus.

Nota

1-Lopes, Hernandes Dias - João: As glórias do Filho de Deus – São Paulo: Hagnos, 2015.

Sobre o autor: Pr. Eli Vieira é formado pelo Seminário Presbiteriano do Norte-Recife, cursando Administração na Uninassau e pastor efetivo da IP Filadélfia,Garanhuns-PE

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

PRESBITÉRIO DE GARANHUNS - 57 ANOS PROCLAMANDO A GLÓRIA DE DEUS

Foto de Eli Vieira Filho.



Foto de Eli Vieira Filho.

Foto de Eli Vieira Filho.



Foto de Eli Vieira Filho.


 Nos dias 16 e 17 de setembro de 2017 comemoramos o Aniversário do Presbitério de Garanhuns, onde estivemos agradecendo ao Senhor por 57 anos de organização do PGAR, pois o mesmo foi organizado no dia 20 de setembro de 1960. As celebrações foram realizadas no dia 16 às 19:30h com um culto de Ações de Graças no templo da Igreja Presbiteriana Central de Garanhuns com a participação de vários pastores, igrejas do PGAR, do Coral do Presbitério Garanhuns, Grupo Sosanin da Igreja Presbiteriana de Heliópolis. O   pregador  convidado para transmitir a mensagem de Deus para o presbitério nesta data especial foi o pastor Edésio Chequer, ex-presidente do Suplemo Concílio da IPB, sua mensagem foi baseada no livro de números 10:29-32, tendo como tema "Um Convite Abençoador", para transmitir este convite o mensageiro a exemplo de Moisés precisa 1)Precisa ter certeza para onde vai; 2)Precisa ter confiança nas promessas de Deus e 3)Precisa ter disposição para repartir a bênção. Estas são características  marcantes do povo de Deus.Estas características precisam continuar no presbitério de Garanhuns.

 No dia 17 de setembro de 2017 às 09:30 aconteceu a Escola Bíblica Dominical Unificada no templo da Igreja Central de Garanhuns, ainda em comemoração ao aniversário do PGAR e ao dia EBD às 09:30 com o templo da Igreja Central cheio o Rev. Edésio pregou baseado em Marcos 16.25 sobre o tema "A tarefa mais Importante". O Senhor Jesus deu aos seus discípulos uma tarefa. Pregar o Evangelho é a tarefa mais importante. 1) Porque se vincula a eternidade; 2)Porque a palavra de Deus produz efeitos temporais e eternos e 3) Porque é uma tarefa permanente.Assim o mesmo desafiou o presbitério a continuar realizando esta tarefa para a glória de Deus. Estes momentos faram marcantes para o nosso Presbitério. 

O meu desejo é que o nosso Deus continue levantando homens e mulheres para continuarem realizando a sua obra em nossa região, no Brasil e no mundo.

Pr Eli Vieira

sábado, 16 de setembro de 2017

Jerônimo Gueiros – “O Leão do Norte”

Biografia

Jerônimo de Carvalho Silva Gueiros (1880-1953)
Pastor, professor, jornalista e poeta – “O Leão do Norte”
Rev. Jerônimo Gueiros

Esse personagem foi um dos mais influentes líderes presbiterianos do Nordeste na primeira metade do século 20, tendo se destacado como ardoroso defensor da ortodoxia. Jerônimo de Carvalho Silva Gueiros nasceu no dia 30 de setembro de 1880, dia dedicado a “São Jerônimo”, na localidade de Queimadas de Santo Antônio (Jurema), município de Quipapá, em Pernambuco. Era o décimo dos 12 filhos e o mais novo dos filhos homens de Francisco de Carvalho da Silva Gueiros (1829-1906) e Rita Francisca da Silva Gueiros (1838-1912). Seu pai descendia de uma antiga família pernambucana com raízes na região de Garanhuns. O avô de Francisco, Manoel da Silva Gueiros, foi o primeiro a ter esse sobrenome, uma possível corruptela de “Queirós”.
O menino viveu até os quatro anos no vilarejo de Salobro, município de Pesqueira, e então por mais dois anos em Palmeira dos Índios, Alagoas. Em 1886, a família retornou para Garanhuns, onde Jerônimo estudou na escola particular do professor João Randal e nas escolas estaduais de Dona Aninha e do professor Joaquim Correia. Posteriormente, também frequentou o Colégio Acioly. Até 1894, sua educação foi pouco além de ler, escrever e fazer contas. Após a abolição da escravatura, ele e o irmão Antônio tiveram de trabalhar como marceneiros para o sustento da família. Também trabalhou como cigarreiro, chegando a fabricar 1.200 cigarros em um só dia. No início da adolescência, tinha uma vida desregrada, entregando-se à bebida e aos jogos de azar.
A vida da família mudou radicalmente com a chegada dos primeiros missionários protestantes a Garanhuns. Em maio de 1894, veio à cidade o jovem pastor Henry John McCall (1868-1960), que havia chegado a Recife no ano anterior, a serviço da missão congregacional “Help for Brazil”. Tendo sido acometido de uma “febre biliosa”, foi levado pelo Sr. David Law e sua esposa, membros da igreja congregacional, a Garanhuns, conhecida por seu clima saudável e ameno. Nessa ocasião, McCall realizou pregações públicas durante uma semana, às quais compareceram Francisco Gueiros e seus cinco filhos. Mais tarde, o missionário lembrou que eles estavam de chapéu na cabeça e, quando ele começou a ler a Bíblia, cada vez que aparecia o nome de Deus, os moços se descobriam em sinal de respeito, porém imediatamente tornavam a pôr o chapéu. Eles e outros jovens tinham sido insuflados pelo pároco local contra o pregador, dizendo que ele era “inimigo de Deus e de Nossa Senhora”.
O Rev. McCall falou tantas vezes o nome de Jesus Cristo e de Deus que os rapazes se cansaram de tirar e pôr o chapéu. Ao contrário do que imaginavam, perceberam que o missionário se revelava amigo de Deus, de modo que, quando a multidão por trás deles começou a gritar e lançar insultos, exigiram silêncio. Quando o adolescente Jerônimo voltou para casa, disse à mãe que o pregador anunciava uma salvação alcançada somente por meio de “Nosso Senhor”, e que ele aceitara essa salvação. Dona Rita respondeu: “Filho, essa é a minha religião. Você não sabe que sempre fui devota de Nosso Senhor?”. Anos antes, quando a família deixou a vila de Salobro, um professor ali residente ofertara a ela um exemplar do Novo Testamento. Desse modo foram convertidos inicialmente o filho mais novo e a genitora da numerosa família.
Jerônimo Gueiros (1880-1953)

Jerônimo só aceitou plenamente o evangelho no ano seguinte, com a chegada do Rev. Dr. George William Butler e sua esposa D. Rena, que foram iniciar o trabalho presbiteriano em Garanhuns por insistência de McCall. Esse casal exerceu forte influência sobre o jovem, que foi batizado em 6 de janeiro de 1895. Passou então a pregar o evangelho aos pais e aos irmãos, até que todos se converteram. Frequentou a escola que D. Rena montou em sua própria residência para os rapazes da igreja nascente, sendo muito dedicado aos estudos e um verdadeiro autodidata. Entre outras matérias, aprendeu inglês, o que lhe abriu novas oportunidades intelectuais. Sentindo a vocação ministerial, tornou-se pregador leigo, ao lado do presbítero Antônio Vera Cruz, como auxiliar do Rev. Butler. Desse trabalho de evangelização resultaram as igrejas de Catonho, Canhotinho, Cachoeira Dantas, Gileá e outras.
A seguir, continuou os estudos no colégio evangélico e na incipiente escola teológica do Rev. Martinho de Oliveira, que substituiu o Dr. Butler quando este se transferiu para a vizinha cidade de Canhotinho. Foi o primeiro aluno do que viria a ser o Seminário Presbiteriano do Norte. Aos 19 anos, foi eleito presbítero da igreja de Garanhuns e, no dia 15 de setembro de 1901, aos 21 anos, foi ordenado ao ministério pelo Presbitério de Pernambuco. Na ocasião, leu perante o presbitério a tese “O destino do homem”.
Desde 1899, vinha dando assistência à igreja de Fortaleza, no Ceará, na ausência do Rev. Reginald P. Baird. Retornando a Fortaleza após a ordenação, manteve por três meses, pela imprensa, uma polêmica com o seminarista José de Arimateia Cisne acerca da Eucaristia. Em 23 de dezembro de 1903, casou-se em Garanhuns com Cecília Barbosa de Frias, que havia conhecido na igreja e no colégio do Rev. Martinho. Logo após o casamento, o presbitério o designou para pastorear a igreja de Natal, onde permaneceu até o início de 1909. Além do pastorado, dedicou-se ao magistério particular e público. Foi redator de O Século, periódico da igreja e da missão norte-americana, fundado em 1895 pelo Rev. William Calvin Porter. Publicou no jornal A Imprensa uma série de artigos sob o título “Estudos de filologia e gramática”.
Por razões de saúde, ausentou-se de Natal em janeiro de 1909, deixando para trás uma igreja com 300 membros e 12 congregações em todo o estado. Regressou a Garanhuns, levando consigo, mediante permissão do presbitério, a tipografia na qual imprimia o jornal O Século. O primeiro número do jornal publicado em Pernambuco saiu em 1º de fevereiro, com o nome modificado para Norte Evangélico, que foi mantido por 50 anos. Esse periódico resultou da fusão de O Século com o jornal Imprensa Evangélica, publicado em Salvador pelo Rev. Matatias Gomes dos Santos. Nessa época, também lecionou no Seminário Teológico de Garanhuns e dirigiu o Colégio 15 de Novembro. Tendo recuperado a saúde, reassumiu em 1912 o pastorado da igreja de Natal. Fundou com o Rev. Calvin Porter uma escola para rapazes chamada Externato Natalense, na qual estudou João Café Filho (1899-1970), futuro Presidente da República. Também fundou a Escola Eliza Reed e reorganizou o Instituto Pestalozzi, onde lecionou português por vários anos. Foi professor da Escola Normal do Rio Grande do Norte, primeiro interinamente e depois como titular, tendo feito concurso para a cadeira de português em fevereiro de 1919. O texto da prova prática resultou no livro Infinito pessoal.
No ano seguinte, sua fama de bom professor levou o governador de Pernambuco, Dr. José Bezerra Cavalcanti, a convidá-lo para dirigir a Escola Normal do Recife, para onde se mudou a fim de assumir o cargo. O convite a um pastor protestante para exercer função tão importante na educação pública causou escândalo nos meios católicos. De imediato, o Rev. Jerônimo se propôs a criar um novo trabalho presbiteriano na cidade, iniciando uma escola dominical em sua residência. No dia 27 de fevereiro de 1921, mediante autorização do presbitério, foi organizada nas dependências do Colégio Agnes Erskine a 2ª Igreja Presbiteriana de Recife, embora, na verdade, já existissem outras três na cidade: a 1ª Igreja, Areias e Campo Alegre. Por algum tempo, o Rev. Jerônimo também assumiu o pastorado da igreja de Campo Alegre e da 1ª Igreja. Iniciou congregações que mais tarde se tornaram as igrejas de Tejipió (1948) e da Madalena (1951). Em 1922, ao falar no Instituto de Ciências e Letras de Pernambuco, demonstrou preocupações sociais, condenando a injusta exploração de trabalhadores por industriais ricos.
A 2ª Igreja passou por vários endereços, até que, em 15 de novembro de 1947, foi inaugurado o majestoso templo da Rua Formosa, depois Avenida Conde da Boa Vista. A construção, supervisionada pelo arquiteto e presbítero Diniz Prado de Azambuja Neto, foi inteiramente concluída em maio de 1949, sendo que, no dia 3 de julho, adotou-se o nome Igreja Presbiteriana da Boa Vista. O Dr. Diniz foi ordenado em 24 de janeiro de 1949, passando a colaborar no pastorado das igrejas de Tejipió e da Boa Vista. Ao lado de outras atividades, o Rev. Jerônimo foi secretário geral da Associação Cristã de Moços (ACM), que oferecia cursos profissionalizantes, entre os quais datilografia, algo muito valorizado na época. Lecionou no Colégio Americano Batista e fundou o Instituto de Assistência e Educação, que mais tarde recebeu o seu nome. Foi membro das diretorias do Seminário do Sul (Campinas) e do Seminário do Norte (Recife). Deste último também foi reitor e professor.
O ilustre ministro caracterizou-se por sua postura doutrinária e eclesiástica fortemente conservadora. Envolveu-se em polêmicas contra o sabatismo, o pentecostalismo, o espiritismo e o liberalismo teológico, combatendo de modo intransigente tudo o que lhe parecia errôneo. Em dezembro de 1937, quando foi aprovada uma constituição para a Igreja Presbiteriana do Brasil, ele se tornou um dos líderes da oposição ao documento. Em especial, objetou contra o diaconato feminino e alegou que a Constituinte havia se reunido de forma irregular. Antevendo um possível desligamento da denominação, levou a igreja da Boa Vista a reformar seus estatutos para adquirir autonomia jurídica. Publicou sobre a questão o livreto “Firmeza doutrinária da Igreja Presbiteriana da Boa Vista”. A situação somente se tranquilizou em 1950, quando foi aprovada a atual Constituição da IPB. À semelhança do seu sobrinho Israel Gueiros, o Rev. Jerônimo nutriu fortes simpatias pelo movimento fundamentalista de Carl McIntire, a quem recepcionou em sua igreja em 1951.
Apesar de seu firme apego à fé evangélica, teve bom relacionamento com católicos de Recife, inclusive com representantes do clero. No final da vida, em um poema dedicado a Maria, descreveu-a em termos evangélicos como a mãe de Cristo. Porém, levado pelos arroubos de poeta afirmou que ela foi “a mãe da salvação”. Algumas freiras da cidade, conhecidas como “Irmãs Doroteias”, com quem mantinha amigável correspondência, imaginaram que ele voltara a encarar a Virgem Maria dentro da perspectiva católica romana. Sabendo-o já bem enfermo, enviaram-lhe um rosário, fazendo votos de que regressasse à igreja católica. Apressou-se então a devolver o rosário às bondosas freiras, escrevendo-lhes uma longa carta na qual agradeceu o gesto de amor cristão e ao mesmo tempo reiterou por completo sua fé evangélica.
Em 15 de setembro de 1951, a igreja da Boa Vista comemorou festivamente o jubileu ministerial de seu ilustre pastor. O Supremo Concílio, reunido em Jandira (SP), enviara uma saudação especial, subscrita por 45 pastores e presbíteros. Seis meses depois, em abril de 1952, sua saúde começou a declinar devido ao coração debilitado e a uma úlcera gástrica. Desobedecendo às ordens médicas, continuou a pregar. Seu último sermão foi proferido na Igreja Presbiteriana de Areias, encerrando uma reunião do Presbitério de Pernambuco. Falou sobre o tema “Tudo novo” (2Co 5.17). No final de março de 1953, pressentindo a morte, convocou pela última vez o conselho da igreja, para uma tocante despedida.
Seu último soneto, “Prece final”, tem os seguintes versos: “Chegou da vida a hora tormentosa / Quando a procela agita o meu batel. / Estende-me, Senhor, mão poderosa! / Ampara-me nesta hora tão cruel! // Por mim já revelaste mão bondosa, / Salvando-me por Cristo, o Emanuel. / Atende, agora, a prece fervorosa / Que te ergo, angustiado, Deus fiel! // Permite-me acabar minha carreira, / E no combate ao mal prevalecer. / Concede-me que a fé eu guarde inteira / Até que o prêmio eu possa receber. // Extingue minha dor, minha canseira / Pois creio em teu amor e teu poder!”. Nos seus últimos dias (30.03.1953), ditou e assinou uma declaração sobre sua firmeza na fé que havia pregado em toda a carreira ministerial.
Faleceu em sua residência às 2 horas da madrugada do dia 7 de abril de 1953 (dia do aniversário da esposa), aos 73 anos. Nos funerais, na igreja e no Cemitério de Santo Amaro, falaram os Revs. Israel Furtado Gueiros, Diniz Prado de Azambuja Neto, Benjamim Moraes (presidente do Supremo Concílio), Othon Guanaes Dourado (deão do Seminário do Norte), Josibias Fialho Marinho e outros oradores. O governador do estado, Dr. Etelvino Lins, esteve presente às cerimônias. O afamado Dr. Munguba Sobrinho, pastor da Igreja Batista da Capunga, proferiu eloquente oração fúnebre que foi publicada no Suplemento Literário do Diário de Pernambuco (19.04.1953). O nome do finado pastor foi dado a diversas escolas e logradouros públicos do Nordeste. Dona Cecília faleceu em novembro de 1963.
O casal Gueiros teve doze filhos: Esdras (advogado e ministro do Tribunal Federal de Recursos), Alda (esposa do pastor batista Adrião Bernardes, falecida antes que o pai), Neemias (brilhante advogado e professor de direito civil conhecido no exterior, tendo representado o Brasil na ONU, na área de direito comercial internacional), Rubem (funcionário do IBGE e assistente da diretoria da Mercedes Benz do Brasil), Helena (esposa do médico Dr. Orlando de Vasconcelos), Álvaro (bancário no Rio de Janeiro), Jerocílio (governador do então Território do Rio Branco), Célia (esposa do advogado e industrial Nilson F. Coelho, da Bahia), Luci (casada com o advogado Evandro Gueiros Leite, ministro do Superior Tribunal de Justiça), Jenílio (funcionário do IBGE), Jerônimo Júnior (bancário no Rio de Janeiro) e Clarindo (gerente da Standard Oil no Rio de Janeiro).
O Rev. Jerônimo Gueiros foi mestre do vernáculo, orador fluente, autor de muitos trabalhos, hinólogo e poeta. Foi membro do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco e da Academia Pernambucana de Letras (cadeira 11, tendo como patrono o General Abreu e Lima). Colaborou com os diários Jornal do RecifeJornal do ComércioA Província e Diário de Pernambuco. Nos dois últimos, redigiu a seção “Disciplina da Linguagem”, cujas lições foram transmitidas pela Rádio Clube de Pernambuco. Entre elas se incluem seus trabalhos “Filologia e gramática – supostos galicismos” e “O português falado no Brasil”.
Escreveu vários livros, opúsculos e artigos, como O espiritismo analisadoProjeções de minha vida – letras, história e controvérsia (coletânea de estudos, 1952), “Minha conversão”, “Igreja Presbiteriana da Boa Vista (síntese histórica)”, “O destino da mulher”, “Religiões acatólicas em Pernambuco”, “A Reforma e o cristianismo”, “A Bíblia e a cultura humana”, “Influência da Bíblia na cultura nacional” (onde fala de inúmeros personagens do protestantismo brasileiro), “Deus conosco” e “Nós pregamos a Cristo crucificado”. Durante a 1ª Guerra Mundial, escreveu uma pequena peça teatral de caráter pacifista, “A paz e a guerra ante a história e a razão”, publicada no Norte Evangélico e encenada em muitas igrejas.
Produziu também os seguintes escritos de controvérsia: “A eucaristia”, “A pedra fundamental da igreja”, “A Bíblia e a ciência”, “Deus revelado”, “Modernismo teológico e fundamentalismo cristão”, “Razões de meu silêncio”, “Perigos dos últimos tempos”, “Firmeza doutrinária da Igreja Presbiteriana da Boa Vista”, “O Brasil ameaçado”, “Firmeza e ortodoxia”, “A heresia pentecostal” e “O perigo do erro à sombra da verdade”. Neste último trabalho, dirigiu fortes críticas a alguns escritos do colega Miguel Rizzo Júnior, nos quais viu a defesa de um misticismo extrabíblico e a colocação da experiência acima da doutrina. Redigiu várias pastorais do Presbitério de Pernambuco e do Sínodo Setentrional, entre as quais “Mensagem de paz e fraternidade às igrejas presbiterianas do Brasil – a propósito da fé que professamos” (1950).
Jerônimo Gueiros teve atuação contínua e destacada nos concílios da IPB. Foi relator da Comissão do Hinário da Assembleia Geral. Como subsídio, publicou a coletânea Novo Hinário, reunindo produções suas, de Cecília Siqueira, Antônio Almeida e outros. A edição de 1935 chegou a 220 cânticos. O Hinário Presbiteriano tem treze hinos seus, entre os quais “Graças te rendemos” (56), “Eis-me aqui, Senhor bondoso” (344) e “Da Bíblia a luz celeste” (371). No Hinário Evangélico estão dez hinos de sua lavra, dos quais os mais conhecidos são “Redime o tempo” (287) e “Glória sem par” (465). O Rev. Reginaldo José de Pinho Borges, ex-pastor da Igreja Presbiteriana da Boa Vista, publicou muitos poemas de seu digno antecessor.

Fontes
  • Lessa, Anais, p. 536, 542. · Ferreira, História da IPB, I:453, 460-62, 552, 556; II:102, 109, 112, 114s, 209, 252-56, 274s, 282, 328. · O Puritano, 10.11.1951, p. 8; · Despertador, jul 1955, p. 1-3. · Israel F. Gueiros, “Jerônimo Gueiros, o lutador”, Norte Evangélico, abril de 1953. · Braga, Música sacra evangélica no Brasil, p. 337s. · Igreja Presbiteriana do Recife (1878-1978) – anais do centenário. · Brasil Presbiteriano, nov 1959, p. 3; set 1980, p. 1; out 1980, p. 16; nov 1980, p. 16; dez 1993, p. 10; maio 1997, p. 18. · Pierson, Younger church, p. 150, 209. · Reginaldo José de Pinho Borges, A saga do carvalho (Recife, 2001). · Reginaldo José de Pinho Borges e Mirian Machado, Memórias (Recife, 2006). · David Gueiros Vieira, Trajetória de uma família, p. 259-271. · Samuel Gueiros, “Resgatando a memória presbiteriana – Rev. Prof. Jerônimo Gueiros – resenha biográfica”, manuscrito (Fortaleza, 2008). · Alderi Matos, “Família Gueiros”, Brasil Presbiteriano, jan 2011, p. 3.
(Do livro “Os Consolidadores da Obra Presbiteriana no Brasil”, 2014)
© Alderi Souza de Matos – Instituto Presbiteriano Mackenzie – Usado com permissão
Ilustração: Lucas Nasto – © 2016 de hinologia.org

Fonte: ADMINISTRADOR HC · PUBLICADO 04/05/2015 · ATUALIZADO 02/06/2017

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Zwinglio e a sua importância para a Reforma Protestante


Neste ano, em comemoração aos 500 anos da Reforma, Lutero e Calvino são figuras que serão lembradas por sua imensa contribuição a causa. Sem dúvida, são os grandes nomes do que veio ser posteriormente chamado de protestantismo, todavia, outros homens também têm a sua importância. Dentre eles um que foi contemporâneo de Lutero e que antecedeu Calvino ao levar os postulados reformados à Suíça. Este homem foi Ulrico Zwinglio.

Nascido em 1º de janeiro de 1484 — apenas dois meses após o nascimento de Lutero — na vila de Wildhaus, no Cantão de St. Gall, nordeste da Suíça, sendo o terceiro filho de uma família com sete irmãos e duas irmãs. Sua educação foi a melhor possível, lhe conferindo um altíssimo nível acadêmico. Estudou na Universidade de Viena e na Universidade da Basileia. Foi instruído em latim, música, dialética, filosofia escolástica, astronomia, física e os clássicos antigos. Influenciado pelo movimento humanista, bastante popular entre os eruditos de sua época, tornou-se Mestre em Artes no ano de 1506, com apenas 22 anos de idade. Músico talentoso, tocava alaúde, harpa, violino, flauta, gaita de foles e trompa de caça.

Após atingir o grau de mestre, Zwinglio foi ordenado ao sacerdócio. Tornou-se pároco na cidade de Glarus, onde serviu como pastor e se colocou contra os mercenários, homens que por dinheiro se alistavam em exércitos estrangeiros. Mudou-se então para Einsiedeln em 1516 e dois anos mais tarde para Zurique. Ainda em Einsiedein, tomou conhecimento de Erasmo de Roterdã e através da sua tradução grega do Novo Testamento passou a pregar sermões que iam contra muitas práticas da Igreja Católica Romana, sobretudo a venda das indulgências, condenadas por Zwinglio antes mesmo de Lutero se opor a elas. Zwinglio e Erasmo acabaram se tornando amigos, embora o semipelagianismo, defendido por Erasmo, tenha sido rejeitado pelo reformador suíço.

Mesmo sendo um erudito e tendo uma experiência pastoral por anos, Zwinglio tinha uma mente humanista e seu cristianismo era de assentimento intelectual. Durante esse tempo, caiu na prática da fornicação, e anos mais tarde, arrependido deste pecado, ainda sentia a afetação de sua vida pregressa. A conversão de Zwinglio se dá paulatinamente, quando o mesmo se torna sacerdote na principal igreja de Zurique. Cada vez mais discordante das doutrinas papais e mergulhando na Escritura para rebater os papistas, Zwinglio tornou-se um expositor bíblico e sua exposição contínua do Novo Testamento, que durou quatro anos (só deixando de explanar o Apocalipse) foi lhe impactando, vendo a necessidade de ter uma fé cada vez mais pura e centrada na Escritura. Assim como o culto também deveria refletir esta mesma pureza.

Após ter sido curado de uma peste, Zwinglio adota uma postura mais sistemática como reformador. O cristianismo, que já estava em sua cabeça, havia descido ao coração, fazendo com que ele buscasse apaixonadamente purificar a Igreja das tradições não escriturísticas. Liderando um grupo ávido por reforma, Zwinglio convocava os magistrados da cidade e expunha os erros doutrinários do catolicismo romano. Os magistrados, por sua vez, organizavam um debate com a presença de um sacerdote católico, e os argumentos deveriam ser retirados apenas da Escritura. Assim a Reforma foi avançando na Suíça, pois os debates eram facilmente vencidos, e práticas tais como a quaresma, o celibato obrigatório, o jejum como penitência e devoção as imagens foram abolidas, tidas como sendo não bíblicas. Além disso, a Bíblia passou a ser traduzida para o vernáculo. Nem sempre Zwinglio era o principal debatedor, mas ele estava envolvido em todas as disputas e num período de sete anos, em 1530, Zurique, Berna, Basiléia e a maioria do norte e leste da Suíça romperam com o catolicismo romano. Incluindo Genebra, cidade que posteriormente influenciou outros países e a partir do ministério de João Calvino e da Academia por este fundada, levou as doutrinas reformadas para toda a Europa.

Graças a estes debates, temos a primeira confissão de fé reformada, que são os Sessenta e Sete Artigos de Fé escritos por Zwinglio, redigida antes do embate em Zurique (1523). Eis alguns trechos:

“Todo que diz que o Evangelho é nada sem a sanção da Igreja, erra e blasfema contra Deus”.
“Que Cristo é o único eterno sumo sacerdote; disto nós deduzimos que todo aquele que pretende ser sumo sacerdote se opõe à honra e poder de Cristo; de fato, ele o rejeita”.
“Tudo que Deus permite ou que ele não proibiu é permitido. Disto nós aprendemos que é próprio para qualquer um se casar”.
“As verdadeiras Escrituras Sagradas nada sabem de um purgatório após esta vida”.
“Todos os superiores clericais devem se humilhar instantaneamente e levantar somente a cruz de Cristo, e não a caixa de dinheiro. Do contrário eles perecerão; o machado é deitado na raiz da árvore”.

O que hoje soa com certa normalidade, na época foi muito ousado, pois, ir de encontro à doutrina da infalibilidade papal era digno de excomunhão e martírio. Outro documento importante, elaborado nesse mesmo contexto são as Dez Teses de Berna (1528), quando a cidade adota as premissas reformadas. Vejamos algumas das teses adotadas:


“A Igreja de Cristo não pode fazer nenhuma lei ou mandamento aparte da Palavra de Deus. Deste modo, as tradições humanas não devem ser-nos exigidas se elas não estiverem fundamentadas na Palavra de Deus”.
“Que o corpo e sangue de Cristo é recebido, essencialmente e corporeamente, no pão da Eucaristia é impossível de se provar a partir da Escritura Sagrada”.
“A adoração de imagens é uma prática contrária à Escritura, tanto nos livros do Antigo como no Novo Testamento. Deste modo, como as imagens desonram a si mesmas, e são um perigo, deveriam ser abolidas como objetos de adoração”.

Como podemos ver, a sua influência foi gigantesca, todavia, sua ação como reformador foi interrompida quando morreu numa batalha envolvendo católicos e protestantes. Hanko descreve como se deu a sua morte, em 1531, quando tinha 47 anos de idade:


Zwinglio estava se inclinando para consolar um soldado morrendo, quando foi atingido na cabeça com uma pedra. Ele conseguiu se levantar mais uma vez, mas repetidos golpes e um ferimento de lança deixaram-no morrendo. Vendo suas feridas, ele gritou: “O que importa esta desgraça? Eles podem matar o corpo, mas não podem matar a alma”. Pelo resto do dia ele ficou deitado debaixo de uma árvore de peras, com as mãos postas como em oração e os olhos fixos no céu. No final da tarde alguns soldados dispersos do exército vitorioso pediram-lhe para confessar seus pecados a um padre. Ele balançou sua cabeça indicando sua recusa. Porém, pouco depois um dos homens, à luz da sua tocha, o reconheceu e o matou com a espada, gritando: “Morra herege obstinado!”.
Alegres com sua morte, os soldados esquartejaram seu corpo, queimaram os pedaços por heresia, misturaram as cinzas com as cinzas de porcos, e as espalharam aos quatro ventos. Assim morreu uma das fiéis testemunhas de Deus.

Mesmo tendo sido um importante reformador, Zwinglio tende a ser subestimado e quase sempre é retratado em poucas páginas nos livros que tratam da história da Reforma. Geralmente, ele é citado à sombra de Lutero, sobre a controvérsia da Ceia. Enquanto o reformador alemão ensinava a consubstanciação - a presença de Cristo nos elementos - o reformador suíço defendia um caráter memorialista. Talvez George (1994) esteja certo ao dizer que


As razões dessa desatenção são óbvias. Zuínglio compôs todos os seus escritos reformados apressadamente, em menos de uma década. Foi ofuscado durante sua vida pelo grande Lutero e sucedido pelo mais eficaz Calvino, que impeliu um estudioso a conferir-lhe o título de “terceiro homem” da Reforma. Zuínglio nunca escreveu nada comparável às Institutas. A maioria de seus sermões foi entregue improvisadamente; apenas alguns foram revisados mais tarde para a publicação. Da mesma maneira, suas conversas informais perderam-se para a posteridade, por falta de admiradores devotados que anotassem cada palavra sua.

Mas, apesar de não ter a mesma reputação de Lutero e Calvino, não ter gerado um segmento teológico que levasse seu nome e ter uma compreensão não ortodoxa em algumas doutrinas, tal como a ideia de que pode haver salvação entre pagãos que desconhecem o evangelho por completo. Zwinglio é um gigante da fé e merece ser assim lembrado nos anais da eclesiologia protestante, pois foi um pioneiro da tradição reformada.

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Referências:
GEORG, Thimoty. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1994.
HANKO, Herman. Retrato de Santos Fiéis. Fireland, 2013.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Teologia Reformada

por
James Montgomery Boice

A Teologia Reformada recebe seu nome da Reforma Protestante do século XVI, com suas ênfases teológicas distintas, mas é teologia solidamente baseada na própria Bíblia. Os crentes na tradição reformada têm alta consideração as contribuições específicas como as de Martinho Lutero, Jonh Knox e, particularmente, de João Calvino, mas eles também encontram suas fortes distinções nos gigantes da fé que os antecederam, tais como Anselmo e Agostinho e principalmente nas cardas de Paulo e nos ensinamentos de Jesus Cristo.

Os Cristãos Reformados sustentam as doutrinas características de todos os cristãos, incluindo a Trindade, a verdadeira divindade e humanidade de Jesus Cristo, a necessidade do sacrifício de Jesus pelo pecado, a Igreja como instituição divinamente estabelecida, a inspiração da Bíblia, a exigência para que os cristãos tenham uma vida reta, e a ressurreição do corpo. Eles sustentam outras doutrinas em comum com cristãos evangélicos, tais como justificação somente pela fé, a necessidade do novo nascimento, o retorno pessoal e visível de Jesus Cristo e a Grande Comissão.

O que, então, distinto a respeito da Teologia Reformada?

1. A Doutrina das Escrituras

O compromisso da reforma para com a Escritura enfatiza a inspiração, autoridade e suficiência da Bíblia. Uma vez que a Bíblia é a Palavra de Deus e, portanto, tem a autoridade do próprio Deus, os reformadores afirmam que essa autoridade é superior àquela de todos os governos e de todas as hierarquias da Igreja. Essa convicção deu aos crentes reformados a coragem para enfrentar a tirania e fez da teologia reformada uma força revolucionária na sociedade. A suficiência das Escrituras significa que ela não necessita ser suplementada por uma revelação nova ou especial. A Bíblia é o guia completamente suficiente para aquilo que nós devemos crer e para como nós devemos viver como cristãos.

Os Reformadores, em particular, João Calvino, enfatizaram o modo como a Palavra escrita, objetiva e o ministério interior, sobrenatural do Espírito Santo trabalham juntos, e o Espírito Santo iluminando a Palavra para o povo de Deus. A Palavra sem a iluminação do Espírito Santo mantém-se como um livro fechado. A suposta condução do Espírito sem a Palavra leva a erros excessos. Os Reformadores também insistiam sobre o direito de os crentes estudarem as Escrituras por si mesmos. Ainda que não negando o valor de mestres capacitados, eles compreenderam que a clareza das Escrituras em assuntos essenciais para a salvação torna a Bíblia propriedade de todo crente. Com esse direito de acesso, sempre vem a responsabilidade sobre a interpretação cuidadosa e precisa.

2. A Soberania de Deus

Para a maioria dos reformadores, o principal e o mais distinto artigo do credo é a soberania de Deus. Soberania significa governo, e a soberania de Deus significa que Deus governa sua criação com absoluto poder e autoridade. Ele determina o que vai acontecer, e acontece. Deus não fica alarmado, frustrado ou derrotado pelas circunstâncias, pelo pecado ou pela rebeldia de suas criaturas.

3. As Doutrinas da Graça

A Teologia Reformada enfatiza as doutrinas da graça.

Depravação Total: Isso não quer dizer que todas as pessoas são tão más quanto elas poderiam ser. Significa, antes, que todos os seres humanos são afetados pelo pecado em todo campo do pensamento e da conduta, de forma que nada do que vem de alguém, separado da graça regeneradora de Deus, pode agradá-lo. À medida que nosso relacionamento com Deus é afetado, nós somos tão destruídos pelo pecado, que ninguém consegue entender adequadamente Deus ou os caminhos de Deus. Tampouco somos nós que buscamos Deus, e, sim, é ele quem primeiramente age dentro de nós para levar-nos a agir assim.

Eleição Incondicional: Uma ênfase na eleição incomoda muitas pessoas, mas o problema que as preocupa não é realmente a eleição; diz respeito à depravação. Se os pecadores são tão desamparados em sua depravação, como a Bíblia diz que são, incapazes de conhecer a Deus e relutantes em buscá-lO, então, o único meio pelo qual eles podem ser salvos é quando Deus toma a iniciativa de mudá-los e salvá-los. É isso que significa eleição. É Deus escolhendo salvar aqueles que, sem sua soberana escolha e subseqüente ação, certamente pereceriam.

Expiação Limitada: O nome é, potencialmente, enganoso, pois ele parece sugerir que os reformadores desejam de alguma forma limitar o valor da morte de Cristo. Não é o caso. O valor da morte de Cristo é infinito. A questão é saber qual é o propósito da morte de Cristo e o que ele realizou com ela. Cristo pretendia fazer da salvação algo não mais que possível? Ou ele realmente salvou aqueles por quem morreu? A Teologia Reformada acentua que Jesus realmente fez a propiciação pelos pecados daqueles a quem o Pai escolhera. Ele realmente aplacou a ira de Deus para com seu povo, assumindo a culpa sobre si mesmo, redimindo-os verdadeiramente e reconciliando verdadeiramente aquelas pessoas específicas com Deus. Um nome melhor para expiação “limitada” seria redenção “particular” ou “específica”.

Graça Irresistível: Abandonados em nós mesmos, nós resistimos à graça de Deus. Mas, quando Deus age em nosso coração, regenerando-nos e criando uma vontade renovada, então, o que antes era indesejável torna-se altamente desejável, e voltamo-nos para Jesus da mesma forma como antes fugíamos dele. Pecadores arruinados resistem à graça de Deus, mas a sua graça regeneradora é efetiva. Ela supera o pecado e realiza os desígnios de Deus.

Perseverança dos Santos: Um nome melhor seria “perseverança de Deus para com os santos”, mas ambas as idéias estão realmente juntas. Deus persevera conosco, protegendo-nos de deixar a fé, que certamente aconteceria se ele não estivesse conosco. Mas, porque ele persevera, nós também perseveramos. Na realidade, perseverança é a prova definitiva de eleição.

4. Mandato Cultural

A Teologia Reformada também enfatiza o mandato cultural ou a obrigação de os cristãos viverem ativamente em sociedade e de trabalharem para a transformação do mundo e suas culturas. Os reformadores tiveram várias perspectivas nessa área, dependendo da extensão como acreditam que a transformação seja possível. Mas, no geral, concordam com duas coisas. Primeira, nós somos chamados para estar no mundo e não para nos afastarmos dele. Isso separa os reformadores crentes do monasticismo. Segunda, nós devemos alimentar os famintos, vestir os despidos e visitar os prisioneiros. Mas as principais necessidades das pessoas são espirituais, e a obra social não é substituto adequado para a evangelização. Na verdade, o empenho em ajudar as pessoas só será verdadeiramente eficiente se seu coração e mente forem transformados pelo Evangelho. Isso separa os crentes reformados do simples humanitarismo.

Tem-se alegado que, para a Teologia Reformada, qualquer pessoa que crê e faça parte da linha reformada perderá toda a motivação para a evangelização. “Se Deus vai agir, por que devo me preocupar?” Mas não é assim que funciona. É porque Deus executa a obra que nós podemos Ter coragem de nos unirmos a ele, da forma como ele nos ordena a agir. Nós agimos assim alegremente, sabendo que nossos esforços jamais serão em vão.

Fonte: Bíblia de Estudo de Genebra


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Pra que confissão de fé se temos a Bíblia?



Um questionamento muito comum que muitas pessoas que são membros de uma igreja confessional fazem é: por que precisamos de uma confissão de fé se temos a bíblia? O motivo desse questionamento é porque se entende que jurar fidelidade a um símbolo de fé implica diretamente em infidelidade a Bíblia ou tê-los como iguais em autoridade a Palavra de Deus. Geralmente os confessionais são acusados de colocarem o seu documento confessional no mesmo patamar que a Bíblia, é fato que realmente alguns poucos chegam a este ponto, mas de forma geral essa acusação é equivocada. Sou pastor da igreja Presbiteriana do Brasil que é uma igreja confessional em seus documentos oficiais, e em sua constituição no artigo 1 ela nos diz o seguinte:
“A Igreja Presbiteriana do Brasil é uma federação de igrejas locais, que adota como única regra de fé e prática as Escrituras Sagradas do Velho e Novo Testamentos e como sistema expositivo de doutrina e prática a sua Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve; rege-se pela presente Constituição; é pessoa jurídica, de acordo com as leis do Brasil, sempre representada civilmente pela sua Comissão Executiva e exerce o seu governo por meio de concílios e indivíduos, regularmente instalados.”

Além de ser uma igreja confessional, a IPB exige que seus ministros e oficiais também o sejam, o Art. 119 da referida constituição também nos diz:

“O candidato, concluídos seus estudos, apresentar-se-á ao Presbitério que o examinará quanto à sua experiência religiosa e motivos que o levaram a desejar o Sagrado Ministério, bem como nas matérias do curso teológico. Parágrafo único. Poderá o Presbitério dispensar o candidato do exame das matérias do curso teológico; não o dispensará nunca do relativo à experiência religiosa, opiniões teológicas e conhecimento dos Símbolos de Fé, exigindo a aceitação integral dos últimos.”

A IPB não somente entende e adota os padrões de fé de Westminster como a exposição fiel da doutrina bíblica como exige aceitação integral por parte da sua liderança. Mas por que nós afirmamos o Sola Scriptura ao mesmo tempo que juramos fidelidade aos símbolos de fé, não seria isto uma contradição? Ainda restam dúvidas tanto por parte dos ministros e oficiais como dos membros da IPB, do porque a mesma exigir dos seus líderes que aceitem os símbolos de fé de forma integral e que jure fidelidade aos mesmos assim como o fazem com a Bíblia. Se a Bíblia está acima dos padrões de fé, por que devemos aceita-los de forma integral e jurar fidelidade a eles? Meu intuito com este artigo não é de esgotar o assunto, mas de tentar esclarecer alguns pontos que podem nos ajudar a entender melhor esse tema, a saber:

1. A confissão de fé nos leva para Bíblia.

Confissão de Fé de Westminster está subordinada as Escrituras, em nenhum momento aquela a sobrepõe, muito pelo contrário, a exalta. No capítulo 1 nas sessões IV, V, VI e X a Confissão de Fé de Westminster afirma:

IV. A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a palavra de Deus.
V. Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço da Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, e eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências incomparáveis e completa perfeição, são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela palavra e com a palavra testifica em nossos corações.
VI. Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens; reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas na palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comum às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da palavra, que sempre devem ser observadas.
X. O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo em cuja sentença nos devemos firmar não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura. (WESTMINSTER 2007).

Os nossos símbolos de fé em nenhum momento arrogam para si a prerrogativa de igualdade com as Escrituras, mas faz exatamente o oposto, reconhece que a Palavra de Deus está acima de qualquer coisa e que esta é a palavra final sobre qualquer assunto.

2. Ela nos ajuda a mantermos a paz e a unidade na igreja.

Outra coisa que os confessionais são muito acusados é de serem divisionistas. Na verdade, um dos objetivos dos credos e confissões durante toda história da igreja era o de manter a unidade e a paz. Sempre houve quem discordasse de uma ou outra interpretação bíblica dada por algum credo ou confissão. A questão é que muitas vezes os opositores discordavam de pontos essenciais da fé cristã defendida pelos símbolos. Heresias como o Arianismo, o Sabelianismo, Unitarismo, livre-arbítrio pós queda e tantas outras foram defendidas por homens que tiveram suas ideias rechaçadas pela igreja através de sínodos e concílios, que serviram de base para a igreja posterior se defender contra as mesmas, mantendo assim a unidade doutrinária e a paz no meio da igreja. Em seu capítulo XX sessão IV a CFW afirma o seguinte:

IV. Visto que os poderes que Deus ordenou, e a liberdade que Cristo comprou, não foram por Deus designados para destruir, mas para que mutuamente nos apoiemos e preservemos uns aos outros, resistem à ordenança de Deus os que, sob pretexto de liberdade cristã, se opõem a qualquer poder legítimo, civil ou religioso, ou ao exercício dele. Se publicarem opiniões ou mantiverem práticas contrárias à luz da natureza ou aos reconhecidos princípios do Cristianismo concernentes à fé, ao culto ou ao procedimento; se publicarem opiniões, ou mantiverem práticas contrárias ao poder da piedade ou que, por sua própria natureza ou pelo modo de publicá-las e mantê-las, são destrutivas da paz externa da Igreja e da ordem que Cristo estabeleceu nela, podem, de justiça ser processados e visitados com as censuras eclesiásticas. (WESTMINSTER 2007).

Ainda tratando sobre o assunto também nos afirma a confissão de fé no capítulo XXXI sessões II e III:

II. Aos sínodos e concílios compete decidir ministerialmente controvérsias quanto à fé e casos de consciência, determinar regras e disposições para a melhor direção do culto público de Deus e governo da sua Igreja, receber queixas em caso de má administração e autoritativamente decidi-las. Os seus decretos e decisões, sendo consoantes com a palavra de Deus, devem ser recebidas com reverência e submissão, não só pelo seu acordo com a palavra, mas também pela autoridade pela qual são feitos, visto que essa autoridade é uma ordenação de Deus, designada para isso em sua palavra.
III. Todos os sínodos e concílios, desde os tempos dos apóstolos, quer gerais quer particulares, podem errar, e muitos têm errado; eles, portanto, não devem constituir regra de fé e prática, mas podem ser usados como auxílio em uma e outra coisa. (WESTMINSTER 2007).

Podemos perceber claramente que os nossos padrões de fé entendem que estes não estão acima das santas Escrituras e que até mesmo reconhecem que os concílios podem errar, sim, a confissão de fé não é infalível e nem inerrante. Portanto, afirmar que quem jura fidelidade aos símbolos de fé está os colocando em igualdade com as Escrituras, na verdade não os conhecem e cometem um grande engano. Chamar os confessionais de divisionistas é não entender que, para que haja paz é necessário ordem, submissão e disciplina. Não defendemos paz a qualquer preço, mas sim, unidade na verdade. Como nos ensina nosso Senhor no Evangelho de João no capítulo 17.

3. A nossa confissão de fé nos guia contra erros do passado.

Outro dos objetivos dos credos e confissões era o de evitar que a igreja caísse nas mesmas heresias do passado. De tempos em tempos sempre aparece alguém trazendo de volta antigos erros doutrinários em roupagem nova, com um novo linguajar, mas a raiz é sempre a mesma de outrora. Daí a necessidade de nos voltarmos para o passado para buscar em documentos elaborados por homens que foram grandemente usados por Deus para a instrução da Sua igreja, o apóstolo Paulo nos ensina sobre isso na carta aos Efésios no capítulo quatro quando diz:

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.” (Efésios 4. 11-14).

O caso do eunuco também tem muito a nos ensinar, a Escritura nos diz:

Um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Dispõe-te e vai para o lado do Sul, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza; este se acha deserto. Ele se levantou e foi. Eis que um etíope, eunuco, alto oficial de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todo o seu tesouro, que viera adorar em Jerusalém, estava de volta e, assentado no seu carro, vinha lendo o profeta Isaías. Então, disse o Espírito a Filipe: Aproxima-te desse carro e acompanha-o. Correndo Filipe, ouviu-o ler o profeta Isaías e perguntou: Compreendes o que vens lendo? Ele respondeu: Como poderei entender, se alguém não me explicar? E convidou Filipe a subir e a sentar-se junto a ele. Ora, a passagem da Escritura que estava lendo era esta: Foi levado como ovelha ao matadouro; e, como um cordeiro mudo perante o seu tosquiador, assim ele não abriu a boca. Na sua humilhação, lhe negaram justiça; quem lhe poderá descrever a geração? Porquê da terra a sua vida é tirada. Então, o eunuco disse a Filipe: Peço-te que me expliques a quem se refere o profeta. Fala de si mesmo ou de algum outro? Então, Filipe explicou; e, começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe a Jesus. (Atos 4.26-35).

As Escrituras nos ensinam que o próprio Deus é quem levanta homens para a instrução do seu povo, com o objetivo de não deixar que este não caia no erro e nas astúcias dos homens e que possam chegar a salvação. O etíope estava lendo as Escrituras, mas não conseguia compreender, foi necessário Deus enviar Felipe para que o mesmo pudesse entender a Bíblia e ser salvo. O que precisamos é abandonar a nossa soberba espiritual e entender que Deus usou homens no passado e ainda os usa hoje para que sua igreja seja protegida do erro. Sendo assim, subscrever um símbolo de fé é reconhecer que Deus capacitou através do Espírito Santo homens para instruir a Sua igreja contra os erros, mostra também a nossa humildade em reconhecer que houve homens mais capacitados do que nós que podem nos ajudar a entender melhor o conteúdo das Santas Escrituras.

Conclusão

Que possamos amar os nossos símbolos de fé sem medo de que estejamos sendo infiéis as Escrituras, que possamos nos sujeitar as autoridades pelas quais o Senhor Jesus exerce o seu governo na igreja conforme nos ensina o Catecismo Maior em sua pergunta 45:

Como exerce Cristo as funções de rei?
Cristo exerce as funções de rei chamando do mundo um povo para si, dando-lhe oficiais, leis e disciplinas para visivelmente o governar; dando a graça salvadora aos seus eleitos; recompensando a sua obediência e corrigindo-os por causa dos seus pecados; preservando-os por causa dos seus pecados; preservando-os e sustentando-os em todas as tentações e sofrimentos; restringindo e vencendo todos os seus inimigos, e poderosamente dirigindo todas as coisas para a sua própria glória e para o bem do seu povo; e também castigando os que não conhecem a Deus nem obedecem ao Evangelho. (WESTMINSTER 2007).

Que possamos entender que ser confessional não é ser antibíblico ou ter a Bíblia subordinada aos símbolos de fé, mas que antes, nos submetemos a eles por que os mesmos se submetem a Bíblia. Que Deus tenha misericórdia de nós e nos ajude nessa tarefa.

Soli Deo Glória!

***
Autor: Rev. Anderson Borges

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